A Miséria dos Miseráveis

Todos os dias desviamos os nossos olhos. Todos os dias acalmamos o nosso coração. Noutros dias desviamos nosso caminho.

Tudo isso para não ver a miséria. Tudo isso para não ver a dor. Afinal ver a dor dói, mas só no início. Com o tempo vamos nos acostumando.

Afinal a miséria é tão comum. Os miseráveis são milhares, são milhões. Se ajudarmos um, que diferença fará.

Assim pensamos, e sossegamos nossa consciência. Nossa consciência dorme, miseravelmente, esquecendo dos miseráveis.

Na grandeza do Evangelho, que mergulha na pobreza, que “embarra” os pés na lama dos miseráveis, que sofre a dor dos sofredores, encontramos:

Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza vocês se tornassem ricos.” 2 Coríntios 8:9 NVI

Um pobre querendo ser rico é até comum, mas um rico aceitando tornar-se pobre é estranho. Para deixar mais claro: é praticamente impossível.

Mas o Evangelho diz que isso aconteceu em Jesus. O Filho de Deus deixou a riqueza do Céu para viver a pobreza da Terra. E mais do que isso – mergulhou em nossa pobreza. Nossa pobreza é complexa. Nossa miséria é miserável.

A miséria humana tem várias facetas ou dimensões. Ela pode ser social, física, emocional ou espiritual. Por isso, a miséria humana de uma forma ou de outra atinge todas as pessoas.

Sem querer ser simplista, mas procurando ser simples, a preocupação de Jesus nos Evangelhos parece ser com um tipo de miséria específica. Ou melhor, com um tipo de miserável específico. Ele olha principalmente para a miséria dos miseráveis.

Os Miseráveis com “M” maiúsculo são os mais pobres, os que menos têm ou nada tem. Os marginalizados, os rejeitados pela sociedade. São aqueles que desviamos nosso olhar. Até que se tornem “invisíveis”. É preciso olhar para os miseráveis, mas não apenas olhar, é preciso mergulhar na dor – algo que não gostamos – algo que não queremos.

O amado Salvador tinha um olhar diferente. Pois, seu olhar não apenas “mexia” com quem era olhado, mas “mexia” profundamente com o “olhador”.

“Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor.” Mateus 9:36 NVI

É importante destacar uma palavra com relação aos sentimentos de Jesus: compaixão. Compaixão vem do latim (compassĭo, ōnis) e significa: sofrimento comum, comunidade de sentimentos.

Essa palavra pode ser descrita como:

um sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem, acompanhado do desejo de minorá-la; participação espiritual na infelicidade alheia que suscita um impulso altruísta de ternura para com o sofredor.

Não existe compaixão sem “mergulhar” na miséria dos miseráveis. A compaixão sai do discurso para a ação. Se esquece do “todo” e olha para o “indivíduo”.

A compaixão não diz:

São muitos!

A compaixão diz:

É um!

Você não pode transformar o mundo, mas pode transformar uma vida. E se não puder transformar uma vida, você pode “aquecer” uma barriga, acariciar um rosto, diminuir uma dor e amar um miserável.

Desculpas não trarão sorrisos, um coração frio não poderá aquecer outro coração. Uma consciência que dorme miseravelmente, não tem fartura e nem disposição para dar.

O clamor dos miseráveis é por mais “Cristos”, que sendo “ricos” se façam “pobres” para encontrar o pobre. Eles anseiam por mais “pés sujos de barro” que entrem fundo na dor humana, mas com a habilidade e sensibilidade de entrar e sair dela.

Hoje é o dia, agora é o tempo, as ruas são o nosso destino. Seguindo as pegadas do Mestre encontraremos a miséria dos miseráveis.

Paulo Aguiar é pastor da IASD Jardim das Américas.

pastoral@iasdjda.com